Crônicas

Tudo começa com “veja bem…”

Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

Sou vítima frequente dessas três modalidades.

E vocês, o que acham?

Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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